09 de Setembro 2010
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Sepultura e Angra no Canecão (RJ) - 29.05.09


Por Rafael Navarro / Fotos: Divulgação

Podemos sim considerar histórica esta reunião entre as duas maiores bandas de Metal nacional de todos os tempos (pelo menos no que concerne ao reconhecimento mundial). Confesso que fiquei entusiasmado com a idéia, pois além de serem grandes bandas, este tipo de turnê é algo não muito comum em nosso país. Mas por outro lado, tanto Angra quanto Sepultura nas últimas vezes que estiveram neste balneário fizeram apresentações abaixo do esperado. Então, nada melhor que pela primeira vez juntas desfizessem a impressão de que estão em decadência. Além disso, tinham que provar que ainda têm muita lenha para queimar.

O Sepultura veio ao Rio de Janeiro divulgar o seu novo álbum, o conceitual A-lex, baseado no grande livro Laranja Mecânica e o primeiro sem a presença de um Cavalera. Já o Angra retornou apenas para mostrar que está vivo e firme após um hiato de quase dois anos por problemas administrativos e empresariais. E ainda de quebra trouxe uma novidade: o retorno de Ricardo Confessori as baquetas.

Primeiro, o local do evento. O Canecão definitivamente não é melhor opção para shows de Metal. Apesar de ser histórica, a casa tem palco baixo, som deficiente e foi, indubitavelmente, desenhada para receber shows de MPB no formato de mesas e cadeiras. Portanto, em várias partes da casa ficava difícil acompanhar o que estava acontecendo no palco. Aqui no Rio existem melhores e bem conhecidas opções, inclusive as duas bandas, em outras oportunidades, já tocaram nestes lugares.

Eram 22h00min, quando o Angra ao som de Unfinished Allegro invadiu o palco para alegria dos presentes. A ultra clássica "Carry On" emendada com a também clássica Nova Era iniciaram os trabalhos e uma preocupação era evidente: como seria a atuação da banda, afinal estavam um bom tempo sem tocar e os vídeos postados na internet de shows anteriores da tour mostravam uma banda desentrosada e Edu Falaschi desafinando em vários momentos.

Mas, o que era preocupação virou alívio, pois a banda veio com tudo para mostrar que ainda são os melhores no estilo que fazem. A verdade é que não tem pra ninguém, o Angra sempre foi e ainda é a melhor banda na seara do Metal melódico.

Waiting Silence veio em seguida para abrir as portas para a primeira surpresa da noite, a linda Lisbon, do injustiçado álbum Fireworks. Edu, que inclusive anunciou que seria a primeira vez que a tocariam com esta formação, teve atuação satisfatória e o público entoou a plenos pulmões esta grande canção. A fantástica Angels Cry levou a galera ao delírio, enquanto a pesada The Course of Nature, do pouco divulgado Aurora Consourgens, manteve o pique no alto.

Daí, então, veio a belíssima Make Believe. A platéia berrou em uníssono este grande clássico, mas cantar essa música é um grande risco para Edu, que não consegue atingir as notas mais altas, afinal a música não foi feita para sua voz. Mesmo assim valeu a pena.

Acid Rain e Metal Icarus foram bem recebidas, enquanto em Late Redemption a emoção tomou conta do Canecão, com o publico fazendo a parte que Milton Nascimento interpreta em estúdio. Grande momento!

Aqui abro um parêntese: pode ser exagero, mas considero o Kiko Loureiro um dos melhores guitarristas do mundo na atualidade. O único senão é sua presença de palco um tanto quanto apática. O resto da banda também se saiu muito bem, com uma execução bem precisa das músicas e uma vibração contagiante, eliminando a preocupação inicial. Fecho parêntese.

Nothing to Say, Rebirth e Spread Your Fire foram as últimas e encerraram de forma primorosa o show que lavou a alma de banda e publico, mostrando que o Angra está vivíssimo e pronto para novos desafios.

Após um breve intervalo, entra em cena a maior e melhor banda de Metal do Brasil de todos os tempos. O nível do Sepultura é altíssimo e mesmo sem os irmãos Cavalera não existe parâmetro de comparação aqui dentro do país. Angra, Krisiun, Korzus e Dr. Sin são excelentes, mas nunca atingiram o patamar do Sepultura no cenário mundial. Mesmo hoje tentando recuperar o prestigio que detinha até a época inesquecível de Arise, Chaos A.D. e Roots (quem viveu esta fase sabe do que estou falando), o quarteto ainda está muitos degraus acima de seus conterrâneos. E esta noite memorável foi prova mais do que incontestável do comentado acima.

Emendaram logo de cara e de maneira fulminante quatro sons do novo álbum: A-lex I, Moloko Mesto, Filthy Rot e What I Do! Já neste momento dava pra perceber que este show seria fenomenal.

Daí em diante, a banda fez um set misturando novos sons com clássicos eternos. As músicas do novo disco foram bem recebidas, tanto quanto as outras da atual fase como Convicted in Life (essa é brilhante!) e Sepulnation. Já os clássicos são um caso a parte num show do Sepultura. É impressionante a reação que estas músicas causam.

Refuse/Resist, Atittude, Territory e Arise deixaram a platéia em êxtase total. Mas a seqüência com Dead Embryonic Cells, Troops of Doom, Escape to the Void e Inner Self causou verdadeiro catarse. Por pouco o Canecão não veio abaixo. Sem exageros.
A performance da banda esteve fantástica: Derrick com presença de palco e atuação vocal cada vez melhores, Paulo Jr. seguro e agitando mais do que o habitual, Andréas Kisser mostrando que com apenas uma guitarra pode-se fazer um som monstruoso e preciso e Jean encaixando de forma perfeita a sua técnica e pegada irrepreensíveis.

A platéia carioca também merece aplausos. Compareceu em peso e agitou sem parar, tanto que Derrick, em determinado momento do show, disse que não existia energia igual a do Rio de Janeiro. Por fim, Roots Bloody Roots, o clássico maior, encerrou de forma primorosa o melhor show do Sepultura com Derrick nos vocais aqui no Rio.

Como presente especial da turnê, Sepultura e Angra se uniram no palco para uma jam com clássicos do som pesado. Aqui foram tocados Immigrant Song do Led Zepellin e Paranoid do Black Sabbath. Enfim, uma noite inesquecível e que esta turnê sirva de exemplo para mostrar que os diversos estilos do Metal podem e devem conviver harmoniosamente.