03 de Setembro 2010
 Edição #140 2010
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Entrevistas e Artigos
- 15º Palco do Rock - Coqueiral de Piatã (Salvador/BA) - 21 a 24/02/2009
- Texto: Cleber Silva/Sandra de Cássia / Fotos: Cleber Silva/Rodrigo Freitas
A décima quinta edição do tradicional “Festival Alternativo Palco do Rock”, realizado no Coqueiral de Piatã, em Salvador (BA), durante a folia momesca, atraiu cerca de 8 mil pessoas por noite. O festival é destaque no cenário do rock independente baiano e nacional e reuniu 36 shows divididos entre os quatro dias de realização. Além dos shows, o engajamento social como a preservação do Meio Ambiente e a interação com o camping distribuído sob os coqueiros são atividades constantes e já reconhecidas pelo público cativo.
Promovido pela Associação Cultural Clube do Rock da Bahia (ACCRBA), teve o patrocínio do Governo do Estado da Bahia, através do Fundo de Cultura, que possibilitou várias melhorias, além dos cachês das bandas, cortados há 11 anos pelas administrações municipais passadas. Teve o apoio singular da Prefeitura da Cidade do Salvador, através Empresa Salvador Turismo (SALTUR) e da Policia Militar da Bahia. A união do Município e Estado trouxe ao festival a harmonia tão esperada, além de estrutura, tais como sonorização e iluminação de ótima qualidade.
A décima quinta edição do “Palco do Rock” foi marcada, mais uma vez, pela diversidade rocker, alto astral e energia pulsante. Milhares de pessoas aproveitaram shows de bandas baianas e de diversas partes do Brasil.
Já passava das 16 horas do dia 21 (sábado) quando o Movimento Hare Krishna de Salvador inaugurou o Espaço Interativo com seus mantras de paz e serenidade. A escolha da abertura oficial ser sem uma banda partiu de Sandra de Cássia, presidente da Associação Cultural Clube do Rock, que gerencia o evento: “É o momento no qual temos que pedir boas vibrações para todos que comparecem, para todas as bandas, produtores, amigos, etc. Ajuda a eliminar os estereótipos, os maus fluidos e emana coisas boas para todos.”
Assim, a primeira banda da noite subiu ao palco principal ainda com o Pôr do Sol. A Incrédula é uma banda relativamente nova, mas ganha seu espaço e vem mostrando qualidade. O som remete ao New Metal com influência gótica e tem em Fernanda Lilith, a vocalista, a principal expressividade. Depois, a Suffocation of Soul, da cidade de Poções (BA), mostrou o Thrash Metal Old School que é marca do grupo. Agitaram o público banger, mostrando que o Metal baiano vai muito bem e tende a se expandir ainda mais. Dando sequência à diversidade rocker, os recifenses da comunidade do Ibura, a banda Sinhô Pereira, levou pro palco programações eletrônicas e percussão aliadas à guitarra, baixo e bateria. Samba, noise, um pouco de hip hop, pop e rock são os ingredientes dessa mistura muito bem feita pelo grupo. Uma banda soteropolitana que merece todos os elogios é a Os Irmãos da Bailarina. A voz de Théo Filho é densa e passeia pelas músicas de melodias extremamente elaboradas. Sua performance é algo à parte: ele anda em círculos e dança discretamente, fazendo-nos observar o show e sentir a música.
Depois de nove anos sem uma banda internacional, o Palco do Rock teve a honra de contar com a suíça Underschool Element. É uma mistura que varia entre o rock pesado, o jazz e as guitarras funkeadas. Greg, o vocalista, subiu ao palco empunhando uma bandeira brasileira, estimulando o público e criando ainda mais expectativa. Já em “Old Call” pode se perceber as diversas influências da banda. Um misto de noise e jazz com baixo marcante. Por falar em baixo, o groove do baixo de Romain remete a Flea (Red Hot Chili Peppers) em muitos momentos, apesar de possuir características bem próprias, principalmente em slaps. As canções alternam o idioma como o inglês, na música “Real Stinky”, o espanhol em “El Dragon Negro” e o francês em “Autour Et Partout”, idioma esse que predomina. Enfim, o show enérgico que enlouqueceu os baianos. Depois dos suíços, os potiguares da AK-47 fizeram uma apresentação extremamente performática e circense. Lançando a nova demo, “Madrugada Sem Fim”, a Mundo Tosco, conhecida do público baiano, vai se renovando e agregando elementos de variação dentro do seu som. Do Hardcore ao Stoner, passando pelo Metal, a banda executou músicas do seu primeiro cd, como “Olhos Negros” e “Renegado”, do seu último registro. Já passava da meia-noite e o Industrial com requintes Góticos da Desrroche subia ao palco para uma das melhores performances de banda no ano. Figurino impecável, uma crucificação ideológica e cruzes espalhadas pelo chão transformaram o Palco do Rock em atos memoráveis. Para encerrar a noite, uma das bandas de punk/hardcore mais velhas da Bahia em atividade. A Pastel de Miolos é veterana em Palco do Rock e tem um público fiel ao seu som, que a cada ano melhora.
O domingo começou e o Sol escaldante de Salvador não queria ir embora. No final da tarde, a Endometriose, de Feira de Santana (BA), levou ao palco punk rock e hardcore feminista. Mais uma banda do interior aportou no PdR e surpreendeu a muitos. A Inventura é de Alagoinhas (BA) e já leva na bagagem shows fora do estado que rendem bons comentários. O momento “Toca Raul” do festival é marcado pela banda Aluga-se. Deja Marinho, vocal e guitarra, entrou caracterizado como profeta e já foi logo cantando “Judas”. Outros sucessos de Raulzito, assim como da própria banda fizeram os fãs do maior roqueiro baiano delirarem. Na sequência, a Hargos, de Belo Horizonte, levou as bases do Thrash Metal e experimentações como o uso de teclados, variações de andamento e linhas de voz. Executaram as músicas do disco “Shadows of Violence”, como “Carnage” e “Hero Betrayed”, que trazem refrãos de voz limpa e riffs poderosos. Respectivamente, essas duas músicas tem histórias interessantes. A primeira concorreu à trilha sonora do filme Jogos Mortais III e a segunda conta a história de Minas Gerais e sua Inconfidência. A banda soa Thrash, mas os elementos adicionais ao som engrandecem o estilo peculiar de se fazer Metal, o que pode dividir opiniões, mas, geralmente, agrada a quem está aberto para experimentações bem feitas. Depois do peso anterior, a Zefirina Bomba detona o palco com seu noisecoregroovecocoenvenenado. Foi uma apresentação realmente insana e altamente enérgica. É inusitado ver a banda com aquela viola modificada encantar os baianos com tanta energia, disposição e criatividade. Parecia o playground do trio paraibano. Mantendo o nível de diversão e rock and roll enérgico, a The Honkers já iniciou com “People Love Hate”, que tem um clima ótimo e um clipe muito bem elaborado. Com o som calcado no Punk 77 e Garage Punk, o grupo fez um dos shows mais animados da noite, no qual o vocalista Rodrigo Sputter ficou seminu (novamente) e desceu para cantar com a galera. Mais modernidade sonora com a Varial, de Maceió. O som deles vai além do Post Hardcore. O Screamo e o Metalcore são influências que podem ser observadas, apesar de comedidas, mas sempre mesclando peso e melodia. Com inegável qualidade de execução de músicas, o grupo, que já participa de trilhas sonoras de filmes de surf, parece ter se sentido em casa, já que tocaram a poucos metros do mar. O Hardcore em estado bruto tomou forma com a Biscó, de Itabuna (BA). O quarteto foi responsável por fazer a galera pogar com as músicas próprias, em “Invadindo seu Espaço” e “A Escolha”, e covers de DFC e Inkoma. Encerrando a segunda noite, a Dryad, banda de Power Metal de Salvador, mostrou que quando uma banda é repleta de bons músicos, há a certeza de uma grande apresentação.
O terceiro e quarto dias seriam marcados pelas passagens de duas bandas ícones do rock nacional. A Almas Mortas abriu a terceira etapa de shows com um som calcado na sonoridade pós-punk e gótica oitentista. A Elipê já é bem conhecida do público baiano e sempre carrega grande público. Não foi diferente no Palco do Rock 2009. Essa é a banda que todo mundo canta, apesar de Paula Noyb ser a principal vocalista e responsável pelas partes mais melódicas das composições. Mais grave e “rasgando a garganta”, o baterista Dudu Lopes dividia com Paula a arte de passar a mensagem. Não contentes com o som diferenciado que já fazem, incorporaram o violino, que também é tocado por um dos guitarristas e enriquece os timbres. Tudo isso fez da banda a revelação baiana do evento. Para marcar uma década de estrada, a Dimensões Distorcidas mostrou a boa fusão do Metal mais extremo com bases simples e vocal extremamente bruto. Em 15 anos de Palco do Rock, a banda Ulo Selvagem coleciona grandes apresentações. Porém, neste ano houve superação. Sandra de Cássia, que também é presidenta do Clube do Rock da Bahia, subiu vestida de debutante para cantar hardcore. Com mais de 20 anos de estrada, a banda estabilizou a formação e fez mais um show de músicas rápidas e caceteiras.
Depois de 15 anos sem vir a Salvador, a Plebe Rude volta a “rachar o concreto soteropolitano”. De acordo com André X, baixista da banda, em declaração no seu blog pessoal (www.xdaquestao.blogspot.com): “O show foi impecável. Também, com um público desses! Salvador tem um lugar muito especial na história da Plebe.” Realmente! O soteropolitano que gosta de um grande show pôde ver a Plebe em grande forma e revigorada. Quase todos os clássicos foram tocados: “Bravo Mundo Novo”, “Censura”, “Códigos”, “Minha Renda”, “Este Ano”, “A Ida”, “Sexo e Karatê”, “Brasília”, além de “Medo”, do Cólera, “Luzes”, da Escola de Escândalos (ambas gravadas em 1999, no álbum “Enquanto a Trégua Não Vem”, registro ao vivo produzido por Herbert Viana e que marcou a volta dos plebeus) e as mais novas “O que se faz”, que abre o disco mais novo e “Dançando no Vazio”, uma versão para Staring At The Rude Boys, do The Ruts. No final, eles se despediram, mas o gosto de quero mais do público fez o coro pedir “Até Quando Esperar”. Era hora de dar adeus à Plebe Rude e esperá-los mais vezes e com intervalos bem menores. Vale ressaltar que Phillipe Seabra deu uma de timbaleiro e recrutou uma percussão que estava em cima do palco para uma participação improvisada mais que especial.
Passada a euforia com a Plebe Rude, foi a vez dos cearenses do Lavage sentarem a mão com bastante punk rock. Logo depois, a atmosfera muda e o mórbido toma conta. Fãs histéricas gritam por Erich, vocalista da Maldita, vinda do Rio de Janeiro. Outros cearenses aportam no Palco do Rock. A Roadsider, destaque nacional com sua primeira demo, fazem um Metal pesado, com influências do Stoner e Thrash. Palhetadas abafadas e harmônicos artificiais são características do som da banda, que também tem no vocalista outra fonte de competência. Já a Keter encerrou a noite do terceiro dia em grande estilo. Porém, o Thrash/Death Metal da banda foi ameaçado por problemas técnicos: o banco da bateria quebrou, o pedal duplo também, a chuva começou e o pedal do guitarrista George deu pau de repente. Perderam alguns minutos da apresentação, mas, com a ajuda de alguns, conseguiram fazer um show matador e eficiente. É mais um exemplo de perseverança e qualidade do Metal baiano.
O último dia de shows começou com a veterana Ant Corpus, que já andava meio sumida dos palcos. A banda renovou o repertório, incluiu mais músicas autorais novas e parte para o Heavy Metal tradicional que lembra as bandas brasileiras do início da década de oitenta, mas com fortes pegadas progressivas. A Louder subiu ao palco com uma sonoridade pesada que remete ao Metal e ao Stoner. Ela fez um dos grandes shows da carreira. Já a Soprones, de Montes Claros (MG), foi mais uma banda que surpreendeu o público e a produção. Uma banda nova (formada em 2008) geralmente treme nas bases quando encontra o público soteropolitano do Palco do Rock. Com eles foi exatamente o contrário. A banda recheou o evento com muito crossover de punk e hardcore com uma energia contagiante e vibração ímpar, digna de tocar em grandes festivais. Não é à toa que foi escolhida como um dos destaques do evento entre as bandas de fora da Bahia, em votação do público durante o evento. A Canibal Brasil mostra irreverência através de Guga Canibal, seu vocalista. Foram várias trocas de figurino durante o show e homenagem à extinta banda baiana Jesus Bastardus.
Já o grupo paulistano Inocentes fez um show que ficará marcado por muito tempo na memória dos seus fãs baianos. A energia de Clemente (que já havia tocado na noite anterior com a Plebe Rude) contagia o público. Com sua guitarra em punho, entoou hinos Punk de décadas de protesto. “Pânico em SP” virou “Pânico em Salvador”, pois o público cantou assim. “Garotos do Subúrbio”, “Miséria e Fome”, “Nada Pode nos Deter”, “Rotina”, “Nada de Novo no Front”, “Intolerância”, “Expresso Oriente”, “Desequilíbrio” - do Restos de Nada - e “Pátria Amada” foram algumas das músicas tocadas no show e que fazem parte do DVD Som e Fúria, lançado recentemente pela Mostro Discos. O final ficou por conta de “I Fought the Law”, do The Clash e uma versão para “Franzino Costela”, do Sex Noise, que foi vetada no DVD pela gravadora. Enfim, Clemente, Ronaldo, Nonô e Anselmo fizeram o que sabem e mostraram a veia viva e pulsante do punk brasileiro no Palco do Rock.
A Minus Blindness mistura o Thrash Metal com sons mais modernos e fazem um som extremamente pesado e elaborado. A banda brasileira que mais faz shows na América do Sul, C.H.O.K.E, é do Paraná e fez um show simples e direto no PdR. Destilou seus principais petardos que unem Hardcore e Metal em estado bruto. Já quase no final da festa, a Movidos a Álcool, de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, levou o Rock Brega ao palco e transformou o PdR numa grande seresta rocker. Encerrando a jornada de 36 shows nos quatro dias de evento, a Fullminant subiu ao palco para mostrar Thrash e Death Metal em velocidade extrema. A banda é nova, mas isso não tira o brilho dos rapazes.
Durante os quatro dias, o Espaço Interativo (ou Palco 2) teve atrações musicais como a banda Sonora com show acústico, Thildo Gama (primeiro guitarrista de Raul Seixas, ex-Relâmpagos do Rock e Os Panteras) e Big Ben (Waldir Serrão) e os Dj’s Raminho e Sweet 666, além da Vaca Verde Material Alternativo, Cooperativa do Rango Vegan, Red Devils Moto Clube (representando a Convenção de Tatuagem da Bahia), os tatuadores Elvira, Cazé e Parma, a grafiteira Rebecca Lawinsky e suas intervenções artísticas de extremo bom gosto e a Agenda XXI do bairro de Itapoã, distribuindo mudas de plantas e orientando sobe a preservação do Meio Ambiente.
A décima quinta edição do “Festival Alternativo Palco do Rock” despediu-se do público deixando alta expectativa para 2010. A coroação de um trabalho árduo está na receptividade do grande público e isso os produtores puderam sentir (e ainda sentem). Que venha o PdR 2010 e muito mais Rock and Roll!
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